Como surgem Psicopatas Organizacionais

Desde a época de Descartes, o ocidente tem acentuado a verdade racional. São amplamente aceitas as ideias de que a ciência e os processos científicos constituem por excelência a maneira de determinar a verdade, e que a inteligência racional e o pensamento lógico são as mais valiosas capacidades de que somos dotados. Desta forma, adotou-se um padrão de lutar para vencer na vida, ganhar a vida, e o trabalho como um fim de enriquecer e ter poder. Desta forma, é comum percebermos profissionais vendo a si mesmos como separados uns dos outros e que precisam competir. Assim, estruturamos organizações pelo poder, hierarquia, controles, metas e punições.A gameficação, ou gamification, é um processo de gestão em que aspectos comuns em jogos são levados a ambientes fora dos jogos para estimular pessoas. Em aplicativos, por exemplo, ela auxilia na fidelização do usuário: com pequenos incentivos, o desenvolvedor estimula o usuário a executar atividades diárias na aplicação.

Em 1996, Hazel Henderson mencionou em seu livro que “a competição galopante que mundo se
transformou, levou as pessoas entenderem que somente lutando poderão ter êxito em suas vidas”.

A estrutura de metas e métricas nos modelos de gestão vigentes traduzem o limite de cada ser humano e levam a exploração completa e ininterrupta deste limite. A exaustão, o estresse são consequências naturais e comuns nas empresas pouco conscientes. Á medida que se intensifica o estresse e fomenta-se a competição interna, pela comparação de resultados, a ansiedade e o medo tornam-se os personagens centrais do drama humano. Ansiedade, adicionada ao estresse levam um profissional a criar e viver em prol de expectativas e nem sempre as expectativas se concretizam diante de um cenário de consumismo de resultados. Como consequência, o estado de depressão e angústia são encontrados amplamente nas organizações modernas.

Ambientes de depressão, angústia, medo e ansiedade estimulados por gestão e lideranças ávidas por resultados trazem um campo fértil para uma doença organizacional: o transtorno competitivo compulsivo. O problema reside não em buscar o resultado, que é necessário, mas o “como”.

Transtorno competitivo compulsivo

É comum encontrar em algumas organizações muito competitivas, um ambiente “interno” de muita competição. Muitas destas organizações, sem perceber, acabam por suscitar conflitos e perseguições onde profissionais se sentem ameaçados, traçam planos para destruir a moral e carreira dos outros, além de uma busca por ascensão na carreira à qualquer preço.

A lógica de um mundo baseado em postulados de separatividade, de fomento da competição e de condicionamentos sociais pode levar pessoas fragmentadas a terem uma obsessão por resultados e ver em qualquer obstáculo, um inimigo potencial a ser destruído. Assim, classifico este padrão de comportamento fundamentado na lógica cartesiana/newtoniana, na normose e na psicose como uma atitude psicopata de destruição do outro, ou seja, um psicopata organizacional.

Pessoas que tem o transtorno de psicopatia organizacional não vivem sem buscar um estimulo de crescimento e desafio projetado na destruição de alguém ou de grupos que representem ameaças. A ameaça é no fundo um grande estimulador.

A psicopatia organizacional tem uma natureza predadora e podemos elencar algumas características como:

·     Perseguição de “oponentes” e destruição completa de sua ação, poder ou imagem;

·     Planos estratégicos para se alcançar o poder desconsiderando pessoas, sentimentos, histórias e ambiente;

·     Destruição de tudo que os anteriores fizeram para se criar uma nova marca pessoal de gestão;

·     Manipulação de comportamento da equipe;

·     Geração de guerras, divisões e formação de alianças internas para enfraquecer o alvo;

·     Usos de dossiês de intimidação;

·     Uso de técnicas de “como fazer amigos” para influenciar e manipular pessoas com mais poder;

·     Jogos sedutores e uma modelação de personalidade para conquistar poder e evoluir na carreira.

AMBIÇÃO SEM CONSCIÊNCIA

Recentemente assisti em uma empresa global com sede no Estado de São Paulo recrutar um alto executivo de uma concorrente por ele ter entregado altíssimos resultados.

Ao chegar, já iniciou ditando regras e buscando culpados por uma performance não satisfatória. Certamente que a empresa precisava melhorar a performance, mas lá existiam inúmeras pessoas de altíssima capacidade que poderiam com habilidade entregar mais. Este executivo mudou categoricamente todo funcionamento da empresa fazendo-a desconstruir critérios e processos. Ele era muito sedutor e habilidoso com seus superiores. Conseguiu aprovar ume estratégia e pediu todo poder para executá-la. Foi concedido.

Começou a identificar quem estaria contra ele e foi eliminando um a um. Com o passar do tempo, foi trazendo seu time da empresa concorrente. Em menos de um ano, ele conseguiu limpar as pessoas que julgava serem seu problema e assumiu mais poder. Os resultados não ocorreram como ele imaginava. Ele intensificou a pressão e perseguição das pessoas. Mais de 35% do efetivo pediu para sair. Em 18 meses, esse homem destruiu a cultura, perdeu todos principais talentos e colocou o faturamento em queda. Você pode imaginar o que aconteceu: foi demitido.

A empresa perdeu 32% de share de mercado e levou um ano para voltar ao patamar antes do executivo chegar. Ela conseguiu trazer algumas pessoas de volta mas perdeu a grande parte que tinha a inteligência do negócio. Até hoje, sua margem permanece 84% menor.

Minhas perguntas: quanto custou uma contratação de um executivo psicopata? Quem deveria ter controlado isso? Como saber se uma pessoa está perseguindo e destruindo pessoas e a cultura para alcançar os resultados?

Cura organizacional

Após viver mais de 30 anos dentro de organizações envolvido em fazer estratégia virar resultado por meio das lideranças e testemunhar estes comportamentos em diversos níveis, encontrei respostas que trazem um pouco de luz à essa situação.

Da mesma forma como o ambiente atrai e fomenta condições de surgimento de psicopatas organizacionais, podemos dizer que há possibilidade de inibir, destravar o medo e até mesmo banir estes comportamentos.

Consideremos abordar três frentes de trabalho intensivo para lidar com psicopatas:

  1. A força das lideranças sêniores conscientes: um lado poderoso que pode banir psicopatas organizacionais é os líderes incluírem em sua estratégia, a criação de um ambiente aberto onde as pessoas possam falar. Deve-se também fazer com que os meios e modos de produzir sejam revelados. Ou seja, é perfeitamente possível buscar resultado de forma humanizada e regulando as competições internas.
  2. A força da equipe e trabalhar integrado: quanto mais as pessoas interagem em times e os silos são quebrados, menos chance há para a manifestação deste padrão de comportamento. Equipes tão fortes quanto os líderes.
  3. As políticas da Alta direção: com políticas de manutenção estratégica e preservação do surgimento de grupos internos dissociados dos valores, é possível detectar jogos organizacionais que transformam ambientes em um sistema de politicagem com diversas moedas de troca. Executivos quando contratados devem ser minuciosamente acompanhados nos primeiros anos.

Podemos entender que uma liderança consciente é aquela que admite que isso pode ocorrer.
Quando temos uma liderança sensível às perseguições sutis, impede-se a perda de talentos,
a destruição de carreiras e a descaracterização dos valores e da cultura.

Estamos caminhando para um mundo mais aberto, produtivo, otimizado, humanizado e espiritualizado. Quanto mais construirmos lideranças fluidas e conscientes, menos chance daremos para este distúrbio comportamental ainda tão presente.